Eventos climáticos extremos desafiam concessionárias de energia
O vendaval que atingiu o Rio de Janeiro deixou moradores mais de 30 horas sem energia. Eventos climáticos extremos testam os planos de contingência das concessionárias, que investem bilhões em modernização, mas enfrentam custos altos e debates sobre quem deve pagar a conta.
A noite em que o vento calou a cidade
Lá no sítio, a gente aprendeu a ler o céu antes da chuva. Mas nem o olho mais treinado prevê um vendaval de 100 quilômetros por hora. Na semana passada, o Rio de Janeiro sentiu isso na pele. Rajadas fortes derrubaram postes e árvores, arrebentaram fios e deixaram moradores de algumas localidades mais de 30 horas sem luz. Não foi só um apagão. Foi um aviso.
Eventos climáticos extremos, como enchentes, temporais e ventos intensos, estão ficando mais frequentes. E isso representa um desafio direto para os planos de contingência das concessionárias de energia elétrica. Quando a natureza aperta, a rede quebra. E quem fica no escuro é o consumidor.
O que os eventos climáticos extremos fazem com a rede elétrica
Um vendaval não derruba só árvore. Ele derruba postes, arrebenta cabos e expõe a rede a riscos de curto-circuito e incêndio. O cenário é de dificuldades crescentes, como reconhece Ricardo Brandão, diretor de Regulação da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).
"A gente, de fato, está enfrentando uma mudança que piora muito as condições climáticas", afirmou em entrevista à Agência Brasil.
Para quem vive da terra, isso não é novidade. O clima sempre foi instável. Mas a frequência e a intensidade desses eventos mudaram. E a infraestrutura elétrica, boa parte dela aérea, fica exposta.
Investimento em resiliência: o que as concessionárias estão fazendo
A Abradee afirma que as empresas do setor aumentaram o montante anual de investimentos de R$ 18 bilhões, em 2021, para R$ 41 bilhões, em 2025. Mais de 40% desse total vai para a modernização das redes, com foco em digitalização.
O que isso significa na prática? Manobras mais rápidas para isolar problemas, sem precisar desligar um bairro inteiro. Ricardo Brandão admite que a medida não evita o desligamento quando uma árvore cai sobre a rede, mas dá opções mais eficientes de resposta.
"A distribuidora consegue fazer manobras para isolar esse problema em determinadas áreas, sem ter que desligar, por exemplo, um bairro inteiro", disse.
A modernização inclui automação, monitoramento em tempo real, redes inteligentes, inspeções preventivas, manutenção baseada em risco e reforço estrutural de equipamentos. Quando viável, entra o enterramento de redes.
Fiação subterrânea: a solução cara que divide opiniões
Um dos pontos mais levantados por pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil foi a instalação de fiação subterrânea. O investimento chega a ser dez vezes maior que o da rede aérea. E aí mora o debate: quem paga essa conta?
Ricardo Brandão defende que esses investimentos sejam feitos pelo poder público, seguindo o planejamento urbanístico de cada cidade. Segundo ele, quando um bairro recebe fiação subterrânea, o custo é distribuído para todos os clientes da área concedida.
"Esse é um investimento que não faz sentido ser feito com recursos da distribuidora, porque o impacto na tarifa é muito elevado. Uns se beneficiam, e a maioria paga sem se beneficiar por isso", argumentou.
Já o professor Edson Watanabe, do Programa de Engenharia Elétrica do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), pensa diferente. Para ele, a responsabilidade por esses custos é das concessionárias.
"Seria bom se houvesse um pouco mais de atividade do lado das concessionárias. Se ficar parado, como a gente anda, vai ser ainda pior", disse.
Comunicação: avisar antes de esperar a ligação
A comunicação também entrou no pacote de melhorias. As distribuidoras agora mandam mensagens diretamente para o consumidor quando o Centro de Operações detecta que ele está sem energia. A ideia é evitar que o cliente precise ligar para o call center.
"Hoje, as distribuidoras mandam mensagens diretamente para o consumidor quando o Centro de Operações detecta que ele está sem energia, para que não precise ligar para o call center da empresa. Ela mesma informa o consumidor e, preferencialmente, dando uma estimativa de recomposição de rede", explicou Brandão.
Isso começa pelos órgãos públicos, como prefeitura, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, para que seja feita a retirada de árvores que caem na rede aérea.
Planos de contingência: a preparação para o que vem
Situações climáticas extremas exigem o acionamento de planos de contingência, para os quais existe regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A preparação precisa ser feita com antecedência, como ocorre com a expectativa para um possível Super El Niño, esperado para afetar o clima na América do Sul neste semestre.
"As distribuidoras estão se preparando, investindo em treinamento de equipes, equipamentos, veículos, para enfrentar o que poderá ocorrer no segundo semestre", afirmou Ricardo Brandão.
A estação úmida nas regiões Sudeste e Centro-Oeste começa a partir de outubro. E a expectativa é de eventos mais intensos do que os enfrentados no passado.
Uma estratégia que veio da experiência com as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, é o compartilhamento de equipes. Quando uma distribuidora é afetada e as outras em volta não são, empresas de outras regiões enviam equipes e veículos para auxiliar na reconstrução da rede.
Segundo Brandão, isso aconteceu na semana passada em São Paulo, embora em menor medida, já que o vendaval afetou distribuidoras vizinhas. "Mas isso está previsto na regulação da Aneel e será importante nesses momentos de crise."
O que isso significa para o consumidor
Para quem está do lado de cá, o impacto é direto: mais horas no escuro, mais prejuízo com comida estragada e mais preocupação. A resiliência da rede não é só uma questão técnica. É uma questão de qualidade de vida.
A terra devolve o cuidado de quem fica. E a rede elétrica também. Investir em prevenção é mais barato do que remediar depois de um vendaval. Mas a conta precisa ser justa, e o debate sobre quem paga ainda está aberto.
Perguntas Frequentes
Quem é responsável pela manutenção da rede elétrica?
As concessionárias de energia são responsáveis pela manutenção e modernização da rede. Em casos de eventos extremos, a Aneel regula os planos de contingência.
O que é resiliência da rede elétrica?
É a capacidade da rede de resistir e se recuperar rapidamente de eventos como vendavais, enchentes e temporais. Inclui digitalização, automação e reforço estrutural.
Por que a fiação subterrânea é tão cara?
O custo de instalação pode ser até dez vezes maior que o da rede aérea. Por isso, há debate sobre quem deve arcar com esse investimento.
O que fazer durante um apagão prolongado?
As distribuidoras enviam mensagens com estimativa de recomposição. Em casos de risco, acione a Defesa Civil ou o Corpo de Bombeiros.
O que é o plano de contingência da Aneel?
É um conjunto de regras que orienta as concessionárias a se prepararem para eventos climáticos extremos, incluindo treinamento de equipes e compartilhamento de recursos entre empresas.
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